Jararaca, surucucu, cascavel. Nenhuma dessas cobras é tão letal quanto Josiane de “A Dona do Pedaço”. Com um veneno superpotente, a vilã é capaz de destilá-lo em qualquer pessoa. Tanto que cravou, sem dó, as presas em sua própria mãe, Maria da Paz (Juliana Paes), que só não sucumbiu à traição da filha por ter encontrado o soro antiofídico na força para viver, a mesma que demonstrou ter no início da trama, quando fugiu de Rio Vermelho após uma tragédia familiar. Agatha Moreira, no entanto, sente no corpo os efeitos das maldades de Josiane — a Canal Extra se recusa a chamá-la de Jô, como ela gostaria, só de raiva. A digital influencer foi capaz de armar com o amante, Régis (Reynaldo Gianecchini), um golpe para roubar a mãe, expulsá-la de casa e usurpar sua fábrica de bolos.

— Todas essas cenas foram dolorosas de serem feitas. Chegava em casa sempre muito exausta. Desde criança, a gente aprende a respeitar os pais. Mexer nesse lugar é doído. É puxado ver uma filha causar uma dor tão grande numa mãe dessa forma, uma mulher que não fez nada para que a menina fosse assim, pelo contrário. Maria da Paz pode ter mimado, fechado os olhos, mas nada é motivo para Josiane ser tão cruel. Ela sente prazer em ver o sofrimento da mãe — lamenta a atriz, de 27 anos.

CHOROU COMPULSIVO

Não é de se estranhar a reação de Agatha ao assistir, ainda no estúdio, ao fim da sequência em que a megera põe a boleira para fora de casa.

— Quando saí da cena, a equipe toda estava acompanhando por um monitor. Ao ver Maria da Paz naquele sofrimento, na hora mudei a chavinha, virei Agatha e comecei a chorar compulsivamente. Senti piedade por aquela mãe tão batalhadora, guerreira, tão do bem… As pessoas conseguem se aproximar dela de uma forma carinhosa, sentem empatia, se colocam no lugar. Naquele momento, senti uma dor muito grande por aquela personagem — descreve a artista, que recebeu uma ligação da irmã, Cristiane, aos prantos: — “Meu Deus, é muita ruindade”, ela disse após ver a expulsão pela TV. Imediatamente, após a cena, dei um longo abraço em Juliana. Isso é o principal, ter pessoas do seu lado. Meus amigos, família, namorado (o ator Rodrigo Simas) me apoiam muito.

Além das sequências pesadas na ficção, Agatha conta que fica mexida com os relatos reais semelhantes às situações vividas por ela na trama.

— As pessoas vêm me contar suas histórias. É quase inacreditável. Tantos padrastos tendo casos com as enteadas, filhas roubando as mães… No caso de Josiane, acho que é de fato uma psicopatia. Nas minhas pesquisas, li que o psicopata não sente empatia nem culpa. Então, é capaz de qualquer coisa, inclusive matar. Para alguém como eu, que me afeiçoo até por personagens, é impressionante saber de gente que não tem esse sentimento na vida.

Moça do sorriso fácil, a atriz se diverte com o comportamento do público, que, em vez de tapas e xingamentos, prefere abordá-la com brincadeiras e piadas, mesmo odiando a maléfica.

— O que me preocupa é o que falam pelas minhas costas, porque na minha frente as pessoas são muito brincalhonas (risos). “Estou te odiando, mas você está fazendo um ótimo papel”, é o que mais escuto. Todo mundo leva muito na brincadeira. Não tem mais aquela coisa da pessoa confundir muito — analisa a carioca de Olaria, que acha graça na surpresa das pessoas ao conhecê-la: — Elas dizem: “Nunca imaginei que você fosse tão simpática”. O curioso é que sentiam mais raiva de mim quando eu fazia Domitila, em “Novo mundo” (2017). E ela estava longe de ser uma vilã. Era um ódio pelo fato de ser amante…

 

A bela também não deixa de ser alvo das piadas dos amigos e do próprio namorado, Rodrigo Simas. Agatha conta que se divertiu com uma postagem recente do ator no Instagram.

— Ele fez um vídeo nos stories dizendo: “Josiane está na minha cama” (risos) — conta a artista, que, por ser namorada na vida real do intérprete do mocinho Bruno, de “Órfãos da terra”, o vê recebendo muitos “conselhos”: — Falam muito para ele ter cuidado comigo. Na verdade, as pessoas o abordam mais para xingar Josiane.

Até mesmo a mãe da atriz, a motorista de transporte escolar Enilda, tem sentido os efeitos da menina veneno.

— Quando dizem para ela: “Nossa, sua filha está muito má!”, ela rebate logo: “Minha filha, não, a personagem dela. Minha filha não tem nada a ver com isso” — conta, rindo, a atriz, que, esperta, aproveitou a má fama da vilã para ganhar pontos com a mãe: — Um dia depois da cena da expulsão na novela, foi aniversário da minha mãe. Liguei para ela e disse: “Parabéns pelo seu aniversário e pela filha maravilhosa que você tem. Agradeça a Deus, olha aí a Josiane! Não pode mais falar um ‘ai’ de mim”. Ganhei todas as cartas na manga com essa personagem (risos).

A verdade é que todo insulto para a maquiavélica é bem recebido por sua intérprete. Afinal, ela diz sem pudores que é a primeira a maldizer a peste.

— Nunca quis defendê-la, porque sempre vi uma psicopatia nela. E o psicopata não precisa de justificativa para os seus atos, nasceu com uma deficiência química, vai além do que aconteceu na sua vida. E vilã que é vilã mesmo não tem que tentar defender, humanizar. Não gostaria que ela tivesse redenção: quero ser vilã até o fim — avisa.

Talvez a única semelhança com Josiane seja o fato de Agatha ter tido, na infância, questões com seu nome.

— Mas só por não ter apelido. Como me chamariam? Aga? Gata? Para uma criança? Mas, na adolescência, curti ao saber que era nome de uma pedra, e, depois que conheci a obra de Agatha Christie, passei a me sentir a tal — brinca.

Fato é que Josiane vem coroar uma trajetória recente, porém promissora, da atriz na TV. A moça que debutou em novelas aos 20 anos, em “Malhação” (2012), nunca saiu do ar nesses sete anos de carreira, o que prova uma aposta da Globo em seu trabalho.

— As coisas aconteceram no tempo certo. Precisei passar por diversos tipos para adquirir a maturidade que tenho hoje e dar vida a Josiane. Nenhuma cruz foi maior do que a que poderia carregar — filosofa ela, que sentiu um certo temor ao ser escalada para personificar tamanha malvadeza: — Bateu um medo. Natural… Se não fosse assim, teria algo errado. Quando li a sinopse, pensei: “Meu Deus do Céu!”. Sabia que seria cansativo, complexo, difícil. Mas queria viver isso.

A coragem com que a carioca mergulhou no ninho dessa cobra expõe uma mulher que não teme o desconhecido. Afinal, ainda adolescente, antes de se tornar atriz, Agatha morou por dois anos em vários países trabalhando como modelo. E radicalizou ainda mais, ano passado, ao saltar de bungee jumping de uma altura de 217 metros, durante uma viagem à África do Sul. Para esta reportagem, não pensou duas vezes em fotografar com uma cobra.

— Sou corajosa, geralmente me jogo. Gosto de experimentar coisas radicais. Quanto mais velha a gente vai ficando, mais medo vai sentindo. Tenho que aproveitar. Acho que depois dos 35, vou sossegar — afirma.

Aspirante a it girl na trama e, por isso, ligada 24 horas à web, a atriz é o avesso da personagem também nesse quesito. Chama atenção durante esta entrevista ela não estar com o celular a tiracolo:

— Tenho melhorado, mas sempre fui péssima com redes sociais. Todo dia, tenho vontade de doar meu WhatsApp, porque, quando abro, são milhares de mensagens. Meus amigos nem esperam que eu responda. Se quiserem muito falar comigo, me ligam.