A criação de uma associação de construtores e reparadores do setor naval de Novo Airão será o primeiro passo para efetivar um projeto de reestruturação do polo naval do município, localizado a 180 quilômetros de Manaus. Essa foi uma das ações preliminares discutidas na última quinta-feira, 21, na sede da Câmara Municipal de Novo Airão, no lançamento do Programa Emergencial para Geração de Emprego e Renda para o Interior do Estado do Amazonas, proposto pelo Sindicato da Indústria da Construção Naval, Náutica, Offshore e Reparos do Amazonas (Sindnaval).

Previsto para acontecer em outros nove municípios com tradição na construção naval, dentre eles, Itacoatiara, Manacapuru e Parintins, o programa pretende criar um ambiente de negócios favorável à construção e, principalmente, reparo naval no interior. De acordo com o presidente do Sindnaval, Mateus Araújo, Novo Airão foi escolhida para dar início ao programa por já ter abrigado, até há pouco tempo, um polo naval forte, com pelo menos 12 estaleiros em funcionamento. Hoje, não são mais que três com produção regular.

Com a presença do prefeito de Novo Airão, Frederico Júnior, do diretor da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, Sebastião Guerreiro, e da secretária adjunta de Gestão Ambiental, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Christina Fisher, além de representantes do SENAI, Seplancti, Sepa, Sebrae, Banco do Brasil e expressiva participação popular, Mateus Araújo apresentou um diagnóstico sobre a situação atual do setor naval no município, com destaque para a falta de infraestrutura, que levou as empresas a se instalarem de forma desordenada na orla da cidade, a falta de mão de obra qualificada, falta de recursos próprios e de financiamento e a burocracia dos órgãos ambientais.

Como na maioria dos pequenos municípios do Estado, a economia de Novo Airão, com seus 18,9 mil habitantes e um PIB per capita em torno de R$ 7 mil, de acordo com as mais recentes projeções do IBGE e Seplancti, gira em torno das atividades da prefeitura. De acordo com Frederico Júnior, eleito no final do ano passado para um mandato curto, até 2020, a prefeitura sofre diariamente os impactos da falta de emprego e a pressão da população em busca de ajuda para sobreviver. Hoje, a folha do serviço público municipal tem 500 servidores efetivos e 300 comissionados.

Para o presidente do Sindnaval, vem da Prefeitura de Novo Airão o principal apoio que a entidade espera para reestruturar o polo naval local, principalmente diante das fortes sanções impostas pela legislação ambiental, já que o município tem 97% do seu território protegido por abrigar o Parque Nacional de Anavilhanas, que integra o Complexo de Conservação da Amazônia Central, considerado Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco.

Enquanto esses tesouros ecológicos já começam a atrair para Novo Airão turistas brasileiros e estrangeiros, o aumento da vigilância dos órgãos ambientalistas tornou ilegal uma das principais atividades econômicas da população local, a extração de madeira. “Para sobreviver, o nosso caboclo é obrigado a burlar a legislação e, fugindo da fiscalização, extrair a madeira na calada da noite”, diz o prefeito.

A saída, enquanto não se encontra uma solução definitiva, segundo Christina Fisher, da Sema, é criar áreas de manejo florestal nas redondezas. O município de Novo Airão conta com cinco planos de manejo.

O diretor da FIEAM, Sebastião Guerreiro, viu na reunião em Novo Airão um momento histórico e uma oportunidade única de se discutir a fundo a reestruturação do polo naval e de outros polos de desenvolvimento no interior do Amazonas. “O que precisamos discutir é o impacto negativo que os 12 estaleiros trouxeram no auge do funcionamento do polo, em relação ao impacto econômico que trariam agora para o município se fossem reestruturados”, disse.

Mão de obra

O projeto de reestruturação do polo naval de Novo Airão reacendeu o entusiasmo do tecnólogo naval Carlos Correia, 50, formado pela primeira e única turma de tecnologia em construção naval, aberta no município pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em 2009. Atualmente, Carlos atua na Record, certificadora de embarcações, mas tem no currículo mais de 50 projetos de construção de barcos e balsas.

Encerrada em 2013, no município, a turma deu origem ao curso de engenharia naval, lançado no mesmo ano pela UEA. Hoje, o professor Alex Monteiro dos Santos, 37, da UEA, que continua acompanhando os egressos daquela primeira turma, mantém a esperança na reestruturação do polo naval.

Na formação de mão de obra qualificada para o polo, um dos principais parceiros do Sindnaval virá do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, por meio da Escola SENAI de Ações Móveis e Comunitárias, representada na reunião por seu gerente, Teodório Filho, que já vem atuando na maioria dos municípios do Amazonas e de outros Estados da região por meio de suas unidades móveis terrestres (carretas) e fluviais (os barcos-escolas Samaúma), através de cursos das áreas de alimento, energia, gestão, madeira, transporte e meio ambiente.

Depois da primeira reunião, considerada muito satisfatória por seu presidente Mateus Araújo, o Sindnaval parte para as próximas etapas. Uma delas é definir, junto com a Prefeitura e a Câmara Municipal, a área de implantação do polo, além de providenciar pesquisa sobre o potencial empreendedor dos empresários do setor naval do município.